terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pintura Renascentista


Emoldurado por
uma árvore
de folhas verdíssimas
por um céu
azulíssimo
ao lado de uma construção
despedaçada
quase uma ruína grega
sentado descuidadamente
uma perna jogada
ao acaso
as mãos apoiando
o corpo desenhado
a la Miguel Ângelo
com seus músculos
ligeiramente
flexionados
e seus cabelos esvoaçantes.
Lá estava ele.
- O dândi moderno.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Poema novo

La música, de Raúl Soldi.

Eu tive um sonho.
Sonhei que cantava
a canção mais bela
a canção mais alta
a canção mais forte.

Era a música do amor.

Eu tive um sonho.
Sonhei que dançava
a dança mais bela
a dança mais certa
a dança mais forte.

Era a dança da vida.

Eu tive um sonho.
Sonhei que dormia
o sono mais calmo
o sono mais doce
o sono mais longo.

Era o sono da morte.

Eu tive um sonho...
Sonhei que
cantava.
Dançava.
Dormia.

Era o sonho da vida.

domingo, 7 de junho de 2009

Natureza morta

A pele faz-se vil,
faz-se oca.
Faz-se morta.
E atrás, bem atrás
da porta, eu ouço
a multidão, que, louca,
de seu covil, brada.
E a pele, ainda vil,
faz-se cada vez mais oca,
faz-se cada vez mais morta.
O que será essa torta unidade das coisas?
O que serão essas rimas mil
ao acaso?
E a gritaria muda da turba corta
o silêncio do nada.
Mas nada muda.
Nada.
E a pele, ainda louca,
faz-se cada vez mais vil,
faz-se cada vez mais torta.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Correspondências

Ah, as influências!... Leio um soneto
De Quintana, de Casimiro um poema,
E logo já sei, já sinto o tema
Que brota, do nada, dentro do peito!

Vou cantar a aurora da minha vida,
Louvarei a minha infância querida,
“Aqueles dias de uma luz tão mansa”,
Antes do vento de Desesperança!

Ah, mas quando chegará o momento
Em que lerei um poema, um texto
Sem que junto carregue sempre o vento

Sem o sopro da correspondência
De me sentir no exato contexto
De seu sentimento, idéia ou ciência?!

sábado, 9 de maio de 2009

Questão de vocabulário

dedicado à minha mãe, Jane.

Mãe
Mother
Madre
Mère
Mutter
. . .
Várias línguas
mesmo significado:
Amor.


Max Ferreira

Ode à Alvorada


Ó, madrugada, madrugada,
Aurora de minha existência!
Morada dos poetas!
Dos desgarrados, dos sonhadores,
dos solitários, dos esplendores!
Não canto só à lua, canto a ti!
Aqui, deitado à cama,
a respirar:
Sinto-me um pintor
- a te cantar!
Sinto-me um poeta
- a te pintar!
Umas pinceladas...
E canto a lua,
cheia.
Uns rabiscos...
E pinto o céu,
mais cheio ainda.
Só eu
que nunca me encho
de ti.


Max Ferreira

sexta-feira, 8 de maio de 2009

On the Road


A estrada chama.
“Vem, ao meu encontro, em alta velocidade.
Não sabe que eu sou inevitável?
Não sabe que eu sou sua mocidade?”

A estrada clama.

...

A estrada grita.
“Vem, anda, se movimenta.
Eu sei que você me fita.
Eu sei que você não agüenta.”

A estrada tenta.

...

A estrada berra.
“Vem! Seja vento, não seja terra!
Que tudo isso é uma quimera.
E o que importa é a viagem.”

A estrada espera.

...

A estrada apela.
“Vem! Que eu sou a vida, e a vida é bela!
Não fique aí, só na janela.
Venha ver a paisagem.”

A estrada é uma viela.
A estrada é uma miragem.


Max Ferreira